Ter mergulhado tão tarde no trabalho de Keren Ann faz-me sentir que perdi muitas viagens, viagens essas a sítios mágicos e extraordinários.
Keren Ann, uma songwriter à americana, situa-se, em jeito de comparação, numa pequena brecha entre Lee Hazlewood e Lou Reed. Com ingredientes comuns a muitos outros artistas, Keren Ann consegue misturar o déjà vu e presentear-nos com algo completamente novo. Do ritmo pulsante, dos arranjos clássicos, da voz pura e da camada de melancolia, Keren retira o essencial para criar uma cadeia de sonoridades sem punch mas com um pequeno toque de groove bem presente em cada música.
Quando me aventurei no seu último álbum [101], que teve um sucesso enorme em território francês, foi como se me empurrassem para um buraco sem fundo que me transportasse para outro mundo. Um mundo onde as maravilhas de Alice se misturam com um sombreado à la Tim Burton e onde nos sentimos a piscar o olho ao Neil Young enquando bebemos um café com os Mazzy Star.
Este 101 é um anestesiante potente mas, mesmo com estes traços marcados pela depressão, encontra-se sempre, ao longo da viagem, áreas de repouso que nos injectam no corpo uma felicidade bem bonita.
Digo, sem pensar duas vezes, que esta narração de Keren Ann em 101 é o que de mais bonito ouvi desde o início do ano, bem ao lado do Let’s England Shake da PJ Harvey.
Keren Ann nasceu em Israel e viveu até aos 11 anos nos Países-Baixos até se instalar em França, onde ainda hoje reside.
Com uma cultura musical tipicamente americana, começa a fazer-se notar com a produção de um album para Henri Salvador, que ganha dois prémios em 2001.
O seu penúltimo album, lançado em 2007, vendeu mais de 60 000 exemplares. O seu último álbum, 101, ja é considerado pela imprensa musical francesa como um dos melhores álbuns de 2011.
