Misturando tecnologia, performance, ecologia, aplicações e instrumentos personalizados, a Islandesa regressa com Biophilia, uma obra dantesca que vai mais além da própria música.

Confessamos: não percebemos de forma imediata que Biophilia, o novo projecto musical de Björk, tem uma temática global, intercalada num turbilhão cósmico e científico (da microbiologia à astronomia), tem ecologia, som, aprendizagem de música a crianças, novas tecnologias, cabelos de Sonia Rykiel ao acordar e roupas impróprias para o planeta Terra. Biophilia, é também uma colecção de músicas 2.0, produzidas numa tablet táctil mas tocadas com instrumentos acústicos quiméricos (criados especialmente para a Björk), em que a venda começou este verão sob forma de aplicações, antes da estreia digital no dia 10 de Outubro. E para os nostálgicos, haverá também um CD.
Biophilia é também uma tournée conceptual, quase uma performance, prevista em algumas capitais do mundo para salas com 1800 pessoas, com o palco no centro e Björk a cantar no meio de instrumentos gigantes, com um coro de vinte cinco jovens islandeses em toga (isso também é algo grandioso). Biophilia, é enfim “o amor da vida” (etimologia). E aqui, acabou-se o riso. Depois da tournée de 2008, Björk perdeu a voz. Depois, a economia do seu país, a Islândia, colapsou ainda mais rápido que o mercado discográfico. “A crise, qual crise?”, teria dito Björk, já lançada no projecto mais ambicioso, colectivo, excêntrico e visionário da sua longa carreira. Björk acha-se Deus, uma espécie de Terrence Malick? Não sabemos. Em todo o caso, ela faz prova de uma energia e um optimismo sobre-humano, sobretudo para alguém que foi vítima de um ataque de cogumelos.

A tecnologia das aplicações para as tablets apareceu já o projecto Biophilia estava bem avançado. Esta tecnologia fez mudar os teus planos? Foi a primeira vez que uma nova tecnologia teve uma influência tão acentuada na forma como crias a tua música?
Björk – Sim e não, porque sempre conheci surpresas tecnológicas. Isso começou quando cantei com um microfone aos 13 anos. Foi um grande choque para mim. Antes disso, cantava sem microfone. Quando fiz o Debut, utilizei computadores, ritmos electrónicos. Depois, com Homogenic, tentei dar um toque islandês aos sons electrónicos, reproduzindo sons de erupção de lava por exemplo. Para Vespertine, tinha o meu computador portátil. Todos diziam que os computadores portáteis nos transformariam em robôs, que não tinham nem carne nem sangue. Vespertine era um álbum que procurava a ligação entre o computador portátil e os estados emocionais. Mas é verdade que com a tablet algo mudou. Antes, encontrava a maioria das minhas músicas caminhando na natureza, depois chegava a casa e arranjava os sons. Os dois estavam separados. Com a tablet, posso fazer tudo o ao mesmo tempo, arranjar a música e cantar. Aproxima-se da forma de trabalhar de um guitarrista ou de um pianista. Escrevi também algumas das músicas de Biophilia com um comando Nintendo. Foi a primeira vez que fiz isso. Quando era pequena, caminhava na natureza e ouvia a música secreta da chuva, da nevasca, da lava e a espuma. Ouvia a música das montanhas nos meus ouvidos. Depois comecei com os grupos punk, sonhando com o momento onde poderia livrar-me das guitarras e baterias. Para mim era poluição, comparando com a música da natureza. Com as tablets, a forma como faço música assemelha-se mais ao que imaginava quando era criança. Esperei esta tecnologia toda a minha vida, sem saber o que seria.

Depois da tournée Volta, perdeste a voz. Como é que viveste esse momento?
Foi muito assustador, não sabia se um dia voltaria a cantar. Vi vários médicos em Nova Iorque, professores de canto, especialistas da voz, osteopatas para cantores…Dizia-me a mim própria: se a minha voz partiu de forma definitiva, que mo digam rapidamente e passarei a outra coisa, há tanta coisa que tenho vontade de fazer, como a volta ao mundo em boleia. Finalmente, a minha professora de canto disse-me que tudo se ia resolver. Depois de vinte anos a cantar com uma má técnica, comecei há três anos com aulas de canto e livro-me dos nódulos sem cirurgia com uma técnica especial. Mudei completamente de regime alimentar. Por causa do candida, um cogumelo que infectou a minha garganta e seios paranasais, parei de comer açúcar e farinha. Foi chato no início, mas no fundo não é algo mau. A minha voz voltou lentamente e decidi compor músicas que ficavam bem com a minha voz. Ao trabalhar em músicas antigas para preparar os concertos de Biophilia, descobri que tinha encontrado o mesmo – ou ainda melhor – alcance vocal que antes.
Também me curei sem o saber ao passar sete meses em Porto Rico. Vi vários mapas, procurando unicamente locais com menos de 70% de humidade, sem saber porquê. Precisava de me afastar de tudo para começar este projecto. Fabricámos nós mesmos o primeiro pêndulo do local, com cordas, elásticos e garrafas de plástico. Foi muito Robinson Crusoe. Andava todos os dias na praia para aquecer a voz. Quando voltei, depois de sete meses em Porto Rico, estava curada, os nódulos tinham desaparecido. O meu médico disse-me que nunca tinha visto uma cura deste tipo. Foi graças à humidade, que provoca um renovamento rápido das células.

O projecto Biophilia parece muito sério, mas ao mesmo tempo bastante divertido….
Claro, há humor neste projecto. Eu sei que a maioria das coisas são ridículas. O facto de subir em palco com um grupo de pessoas que se calam enquanto eu canto, é absolutamente ridículo e muito difícil de levar a sério. Ainda me falam do vestido de cisne que levei aos óscares há dez anos. Estava no tapete vermelho, com a elite de Hollywood, esse vestido só podia ser uma brincadeira…no entanto, as pessoas acharam que eu estava a ser séria. O meu estranho sentido de humor por vezes, só me diverte a mim mesma. Acho que às vezes me levam demasiado a sério. Acho que podemos ser divertidos e sérios ao mesmo tempo. Espero que o meu humor não seja sarcástico e cínico. Ao menos, é honesto.

A peruca vermelha de Biophilia é usada de forma humorística?
Há várias razões para esta peruca, que à primeira vista é ridícula. Para curar a minha candidíase, tive que escovar a minha garganta e gargarejar com água oxigenada durante um ano, tudo isto tendo cotonetes nos ouvidos. O candida é um cogumelo, o oxigénio mata-o. Mas fazendo isto uma ou duas vezes por dia, sentia o efeito no meu cérebro. Os médicos dizem que quando o candida atinge o cérebro, é o princípio de Alzheimer. Estava cada vez mais chateada, brincava com os meus amigos ao dizer-lhes que o meu cérebro começava a dissolver-se. E sobretudo, notei que com este tratamento o meu cabelo começava a ficar vermelho. A peruca, é um exagero desse fenómeno.
Quando este projecto ganhou forma, houve um momento difícil, em que não sabia como me posicionar. Desde o início, Biophilia não falava de mim, mas do encontro entre o do-it-yourself, a música, a biologia e a tecnologia. Três anos mais tarde, incluía o universo e tudo o resto…um dos temas do projecto, é o movimento dos sons e a sua aprendizagem às crianças. Quando canto uma nota, ela vai até a ti, é um fenómeno físico. Os átomos e os planetas funcionam de forma muito similar, enquanto os humanos e os animais não funcionam assim, segundo as regras físicas. Obviamente, a criação que explica isso tudo tem a cabeça nas nuvens. Imaginei então uma espécie de professor de música frustrado. As crianças vão para as outras aulas, muito pragmáticos, e quando chegam à aula de música encontram-se frente-a-frente com este hippie um pouco assustador que quer ensinar música falando-lhes de galáxias. Precisava que a minha peruca tivesse uma aparência de nuvem.

Desde quando é que te interessas pelas ciências?
Fui sempre assim. Via as emissões científicas da BBC quando era pequena. Quando fui para o liceu, tive que escolher disciplinas, e escolhi física e matemática. Era a única rapariga nessas turmas científicas.

No teu concerto de apresentação do Biophilia, em Manchester, acabaste com uma música antiga, Declare Independence. A independência é um conceito fundamental para ti?
A independência, vem do meu background punk. Em Reykjavík, quando era adolescente, havia duas editoras principais, uma delas indie onde todas as pessoas trabalhavam de forma voluntária: decidíamos tudo e fazíamos os cartazes dos concertos. Venho deste sistema. Na outra editora, distribuía-se os álbuns da editora indie. É um pouco assim que trabalho hoje em dia. A minha ideia de independência, é que a editora distribua a música, nada mais. Para este projecto, visitámos muitas editoras à procura de suporte financeiro. Estavam todas intrigadas com o projecto, e tudo acabou aí. Fiz tudo sem suporte financeiro de editoras. Mas não as odeio. As suas recusas de se aplicarem, permitiu ao projecto de ficar o que era suposto desde o seu início: um trabalho do-it-yourself. Se alguém nos tivesse regado de dinheiro há dois anos, não teríamos ido em frente com a nossa visão, teríamos ficado preguiçosos.

Este projecto é a tua resposta ao colapso da indústria discográfica?
Há alguns anos, quando tinha perdido a voz, não tinha um contrato, e ao descobrir as tablets disse-me que todo este velho sistema não funcionava mais. Fiz a triagem e recomecei do zero. Foi um acto de libertação para mim. Depois de ter curado a candidíase e os problemas de voz, perguntei-me: o que resta? O que funciona? É muito simples: há pessoas que têm vontade de ouvir música, pessoas que fazem música, e há a internet. Então o que fazemos? Distribuímos a música na internet. Para mim, o que acontece hoje em dia, não é uma crise. É como se vestíssemos roupas de há vinte anos, sem perceber que estão usadas. Mas no fim de contas, há ainda pessoas que querem CD’s. Então acabei por assinar com uma editora para distribuir o álbum.

Paralelamente a este álbum, gravaste algumas musicas com o músico sírio Omar Souleyman. Foi importante para ti?
Adoro a música pop ocidental, mas houve outra coisa. Para mim, a Islândia é um país de segundo mundo: não é do terceiro, nem do primeiro mundo. Há sessenta anos, na Islândia, vivíamos como na Idade Média, muito abaixo do limiar de pobreza. Estamos agora no meio, como a maioria dos países do mundo, onde a industrialização é recente, onde o inglês não é a primeira lingua.

Depois das crises financeiras, os Islandeses lançaram-se na escrita de uma nova constituição. Participas nas decisões?
A nação elegeu sessenta pessoas para escrever a nova constituição. A anterior vinha da Dinamarca. Entre os eleitos, está o meu pai. Dirige um sindicato de electricistas. Pertenceu sempre à oposição. Chamavam-lhe o “Lech Walesa islandês”. Foi eleito para defender os interesses da classe trabalhadora. Mas prometo que nunca o influencio, é mais ele que me inspira.

Entrevista de Stéphane Deschamps, para a revista Les inRockuptibles (14.09.2011)

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Comentários
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    Só uma curiosidade: ela batizou o nome erroneamente achando que Biophilia queria dizer “amor à natureza”. Pelo menos ela acerta em cheio mesmo quando se engana, como no outro álbum de nome errado, Homogenic.